Dia Mundial do Rock: Quem é esse sargento Pimenta e por que ele revolucionou a história do rock?

Criado por Letícia Castro em em 13/07/2014

sgt-peppers-capa-discoA famosa capa: fotografia de Michael Cooper e arte gráfica de Peter Blake

“You’re such a lovely audience, we’d like to take you home with us, we’d love to take you home!”. Foram mais de 700 horas de gravação. O melhor álbum dos Beatles. Há controvérsias. IMHO, pelo menos. E, hoje, no Dia do Rock, como parte da série dos 10 melhores álbums da história do gênero, selecionados pelo poeta e ex-baterista Erickessen Sauer, nada mais justo do que trazer de volta a obra breakthrough na trajetória dos garotos de Liverpool. Are you ready? Go.

 

Sgt. Pepper’s, a descoberta

Era 1987. Naquele ano, especificamente, eu tinha decidido completar minha coleção dos Beatles, começada três anos antes, quando ganhei de presente de uma tia o último disco gravado pela banda, o Abbey Road. A história era a seguinte, eu dava aulas de inglês na Fisk, como monitora, e com o dinheirinho que vinha, todo mês comprava um álbum. Seguia a ordem cronológica dessa vez, Please, Please Me, With the Beatles, etc. Enquanto isso, a  imprensa mundial se agitava para a cobertura dos 20 anos do Sgt. Pepper’s e eu não via a hora de comprar o meu, bolachão, vinil, preciosamente guardado até hoje, junto com os outros.

Quatorze anos. Não tinha nem beijado na boca ainda (bom, não daquele jeito…), sequer tinha qualquer noção sobre o que a palavra “ácido” poderia significar, além de “ácido sulfúrico”. Morando na Brasilândia, periferia da capital paulista, não me escapava o “aroma” do “loló”, bem popular fora dos muros da escola, mas daí a entender o que passava pela cabeça dos caras quando eles ficavam high with a little help from their friends…

Mas junho chegou e eu fumei o Sgt. Pepper’s. Como bem lembra Einstein, minha mente nunca mais voltou ao mesmo tamanho. (“Found my way upstairs and had a smoke, somebody spoke and I went into a dream…”).

 

A banda do clube dos corações solitários do sargento Pimenta

“Que p… de título é esse?” Ecoa a pergunta desde 67. A ideia de criar uma banda fictícia, que conduziria o público a uma experiência nunca antes sentida, foi de Paul. Cheio de personagens, o disco começa a apresentação desse novo grupo com um convite para embarcar na viagem (“and they want you all to sing along”). E aí vem Billy Shears e Ringo Starr tem que agradecer até hoje de joelhos aos irmãos de palco (mas, sobre todos, a Joe Cocker!). Então, uma por uma, cada faixa vai contando uma “historinha” a sua maneira.

O trovadorismo de Paul em She’s Leaving Home, clássico, sensível e tocante, de chorar imaginar aquela menina breaking free para ganhar a vida, enquanto os pais se lamentam. A psicodelia – e genialidade – de John, chapadaço, em Lucy in the Sky e o transcendentalismo de George, em Within You, Without You. Nunca um álbum foi tão individual dentro de um grupo. Quem ouviu o Sgt. Pepper’s em tempo real, sentiu o prenúncio do que seria uma possível carreira solo de cada um dos ingleses.

Eu, que já havia sido fisgada décadas antes, quando ouvi Michelle pela primeira vez aos três, em uma novela da Globo (“somebody spoke and I went into a dream”…), explodi numa viagem sensorial libertadora. Preferencialmente, gosto do White Album, mas é o Sgt. Pepper’s que a gente ouve, toca, cheira, come e vê. Sonho acordado. Representação musical do que ia pela cabeça das pessoas naquela agitada segunda metade dos anos 60 (lucky bastards).


Ecos do passado

Eu estava à metade do caminho na linha do tempo entre o lançamento do Sgt. Pepper’s e o que sentiria a jornalista, especializada em agronegócio, Flávya Pereira, duas décadas depois, em sua vez de experimentar o disco. Descobrir tudo isso nos anos 60 é diferente de fazer a mesma coisa nos anos 80 e, abissalmente diferente de fazer a mesma coisa nos anos 2000. Eu não tive internet na época e, graças a Deus!, havia o encarte com as letras, porque “tirar aquelas de ouvido”, com precisão, nem um nativo conseguiria. Gastei uma grana para comprar os livros e revistas e documentários, a fim de entender aquele contexto tão único. São Google grátis é uma bênção!

encarte-sgt.-peppers-letrasA contracapa, com as letras do álbum

Segundo Flávya, “eles saíram da fase iê-iê-iê e entraram na psicodelia, em letras profundas e numa viagem da alma deles. Principalmente o John. Foi o amadurecimento dos Beatles. Só que esse amadurecimento de letra e música pode ser sentido em Revolver. Mas o mundo se ligou na mudança apenas no Sgt.”. Para ela, o Sgt. Pepper’s, no que diz respeito à experiência auditiva, não é um “disco bom pra ouvir”. “Ele está longe de ser o melhor. Mas é um divisor de águas”, afirma a jornalista.

Já o músico e editor do blog Beatles College, Edcarlos da Silva, vê no disco um legítimo representante da era “paz e amor” e da vontade daqueles jovens de experimentarem novas sensações. “Quer saber como foi a segunda metade dos anos 60? Ouça o disco enquanto analisa com atenção a foto da capa. Tá tudo ali.”, diz o músico.  Ele lembra também que a obra é considerada até hoje como “o álbum revolucionário“, que transformou o rock’n'roll em arte e revolucionou a música pop.


As inovações do Sgt. Pepper’s

Paul McCartney uma vez disse que, antes do Pepper’s, eles só escreviam “sticky songs”. Compor o álbum havia sido “escrever um romance.  Veja, na lista abaixo, alguns dos elementos que fizeram do oitavo disco dos Beatles um ícone de sua época e da história da música:

1. As letras retratavam o universo de um período infestado por agitações sociais, entre elas: a liberação sexual e o propagado uso de drogas, o movimento hippie, as manifestações políticas que tomavam as principais capitais da Europa e do mundo. Para entender os textos de Sgt. Pepper’s é preciso um profundo mergulho nesse recorte histórico.

2. Com a produção de George Martin (quem mais tarde acompanharia McCartney por toda sua carreira solo), o disco é considerado conceitual e incorpora, pela primeira vez na história do rock, elementos de música erudita e eletrônica, com técnicas de gravação que não haviam ainda sido usadas por ninguém. As faixas não têm pausa entre si, o que faz você ter que embarcar mesmo numa aventura sonora sem ponto e vírgula. Para quem tem o vinil, como eu, ainda há a pausa de “ter que virar o disco”, mas para os que compraram o CD, a viagem é ainda mais intensa.

3. Brincadeiras no estúdio. Faixas tocadas ao contrário, sons de animais, clarinetas, harpas e instrumentos indianos. O Sgt. Pepper’s é talvez o primeiro disco globalizado de que já se teve notícia.

4. E aquela capa? Einstein, Bob Dylan, o Gordo e o Magro, Carl Jung, Marilyn Monroe, Marlon Brando, Muhammad Ali, os próprios integrantes da banda em sua famosa versão de cera por Mme. Tussaud, entre outros. O público da apresentação, ícones pop escolhidos a dedo pelos caras, todos “fãs dos Beatles”. Uma Babel de pessoas.

5. Last, but not least. Porque, meu, você nunca ouviu nada igual. Mesmo.


Some lyrics

O Babel deu uma escarafunchada na rede e encontrou algumas pérolas perdidas por aí. Entre elas, os originais das letras, handwritten, por Paul e John.

Lyrics-SgtPeppers-originalO original do abre-alas do disco: motivo de disputa judicial entre McCartney e uma loja de leilões (Fonte: The Smoking Gun)

 

Lovely Rita
Rascunho original de Lovely Rita, direto da canhota do Paul (Fonte: Biblioctopus, leia mais neste artigo do L.A. Times)

letra-a-day-in-the-life-john-lennon-sgt-peppersA day in the life, na letra de John (Fonte: Reuters)

 

Tem 39:42 minutos?

A revista Rolling Stone, em 2003, colocou o Sgt. Pepper’s no topo de uma lista dos 200 álbuns definitivos no Rock and Roll Hall of Fame. Tome fôlego:

1. Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band
2. With a Little Help from My Friends
3. Lucy in the Sky with Diamonds
4. Getting Better
5. Fixing a Hole
6. She’s Leaving Home
7. Being for the Benefit of Mr. Kite
8. Within You Without You
9. When I’m Sixty-Four
10. Lovely Rita
11. Good Morning Good Morning
12. Sgt Pepper’s (Reprise)
13. A Day in the Life

Comentários (1)
  1. Pingback: Quem é esse Sargento Pimenta e por que ele revolucionou a história do Rock and Roll? | The Beatles College

  2. Erickessen Sauer comentou, em 15/07/2014:

    “… Por mais impressionante quem seja o trabalho dos “Meninos de Liverpool” ainda resta-se enaltecer o ponto de vista da brilhante jornalista a qual elucidou de uma maneira tão simples a fato intrincado culturalmente falando da ambiguidade entre dois mundos sejam da visão global como um todo ao resumo de uma idéia própria para tal contexto!”

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